Durante a adolescência eu não sentia a mínima vontade de aprender a cozinhar. A única coisa que eu sabia fazer além de miojo era café. Tomo café desde que nasci os 13, 14 anos se não me engano, e foi o que quis aprender a fazer.
Cheguei à fase adulta sem muita intimidade com a cozinha, aprendendo a cozinhar porque não tinha outro jeito. Eu realmente não curtia panelas e fogão. Mais ainda, eu podia jurar que não levava jeito, cozinhava mal e pronto.
Fui aprendendo de tudo um pouco, mas vez ou outra (quase sempre) detonavam minhas receitas. Acabei deixando pra lá, tomando uma certa antipatia pela Dona Benta cozinha nossa de cada dia.
Quando eu e meu marido começamos a namorar fiquei encantada quando soube que ele adorava cozinhar, o dia em que ele cozinhou pra mim eu fui à loucura hahahahaha. E quando ele começou a falar em casamento tratei de avisar que eu era péssima cozinheira.
Casamos e no dia a dia fui fazendo um feijão aqui, uma macarronada ali, e ele sempre elogiando, dizendo que não sabia de onde eu tinha tirado a ideia de que não sabia cozinhar.
E meu ego foi inflando, comecei a me sentir uma Nigella Lawson, passei a procurar receitas, testar, inventar, e sempre colhendo elogios de quem experimentava.
Até que engravidei e me tornei expert em arroz queimado. Sim, meu arroz nunca mais foi o mesmo. E é tudo culpa do amor.
Durante a gestação eu fiquei dispersa, desatenta, então simplesmente esquecia a panela de arroz no fogo. João Miguel nasceu e durante os primeiros meses eu cochilava enquanto cozinhava. Colocava a panela lá, sentava no sofá e dormia. Acordava com o cheiro de comida quando começa a queimar.
E de lá pra cá nunca mais comemos um arroz sem "fundo" queimado nessa casa.
Hoje eu queimo o arroz porque paro para observar meu filho brincando, ou dormindo. Queimo o arroz porque esqueço de tudo brincando com ele. Queimo porque me perco no tempo sentada com ele no sofá. Queimo porque é bem mais divertido contar historinhas, ler livros, do que vigiar panela.
E basta ele gritar um "mãmã" que largo tudo e vou correndo.
Daqui a um tempo queimarei o arroz enquanto explico uma lição da escola, ajudo em uma pesquisa, bato um papo, escuto as novidades do dia.
Mais tarde (muito mais tarde, espero) queimarei o arroz porque estarei escutando seu desabafo sobre os primeiros problemas, as primeiras questões de "vida ou morte", as primeiras paixões.
E queimarei o arroz sempre que ele quiser colo.
Essa semana marido chegou para almoçar e disse: "você faz o melhor arroz queimado do mundo". Lógico que eu pensei ser deboche e já fui buscar a bazooca troquei o sorriso pelo semblante emburrado ( maduro não?), até que ele disse: "é sério, mesmo com o fundo queimado adoro esse arroz, e sempre queima por um bom motivo".
Então é isso: arroz queimado também é amor.
PS: Não conhece Nigella Lawson? Clica aqui.





